Doppelgänger

Raposa dum ritual conhecido,
Cativaste as minhas horas 
De espera. 
E assim, vou percorrendo
Cada caminho desta esfera. 
Subo o íngreme caracol que apontas,
Dando passos ao teu som.
Vais levando a minha sombra
P'las fendas no meu peito, 
Sem antes posarmos o
Fim num beijo.

Onde está o degrau esperado?
Penso, trancada neste corpo de estátua.
Espreito as unhas, cravadas 
No corrimão cortado e olho-te:
- Sorriso incomodado por prazer, 
Que guarda a sinceridade do que
Fica por dizer, diz-me,
Por que não vem o nascer do sol?
Prometeram-mo num qualquer
"cliché".

24 & 28.11.2011

37°47′0″N | 25°30′0″W

Pedaço de rocha
Entre ar e água, 
Decorada por nuvens 
Em movimento. 
Logrador que
Tatua a mágoa
Da saudade
Sob chantagem do tempo.
28.11.2011
  

Homem de Lata

Ofereci meu coração
Em ato d'altruísmo egoísta.
Mas num jogo malabar e
Antes qu'eu me pudesse virar,
Atirou-o p'ra fora de vista. 

26.11.2011

Avenida Infante D. Henrique - Ponta Delgada, S. Miguel

Fugir

Andar.
Apenas colocar pé ante pé 
E partir.
 
Enterrar os calcanhares
Na fina areia 
E sorrir.
Envolver as pernas
Na água salgada e rir.
Rasgar os mantos 
Ondulantes e ir. 


Naufragar por entre
Lençois de movimento lento,
Suspirar o redor
E de olhos bem abertos
Ver o ar roubado 
Pelas correntes.

12.11.2011  

Purificação

"Green Heart .. Maybe Hope?" | Ana Félix
Deito-me entre as páginas 
De frases mudas e
Deleito-me a sentir e a
Ressentir as horas nuas.
Planto o medo em terra infértil,
Sob a luz duma enorme lua,
E espero.
Arranco as cores
Suspensas em pintura e
Levo-as à boca
P'ra tingir as palavras que
Seriam tuas.

18.11.2011

Objeto Brilhante

Tu, que me observas de longe
E me deixas levar
Pelas minhas loucuras.
Tu, que me olhas como
Quem me ama,
Que se acaricia e se nutre 
Da minha tortura.


Não te quero na alvorada,
Nem depois do crepúsculo.
 Abandona o céu noturno e
Leva contigo
Meu coração minúsculo.

14.11.2011

Peso Marcado

Numa rua sem saída,
Sigo em frente p'ra fugir.
Sigo as placas sem nome
- Alguém tem que as seguir.

Esventro a escuridão e
Estaciono junto à praia.
Deito-me com o banco e
Espero que a chuva caia.


Ouço os sons da rádio,
Tons fotografados a cinzento.
Sob um lampião de lucidez fundida,
Solto as cordas do meu lamento.

Promise Me


Wrap your arms around
My sadness and love me tight.
When my world turns
Into madness,
Tell me it'll be alright.

10.11.2011



AnaLogia

Os grãos de areia fluem
Pela quietação homicida que
Confessa a sua nudez. 

Vê-lo a ir
Sem o poder agarrar e
Beijar mais uma vez.

"descansa, ele volta..." - shoot me

Os apertos são tricotados
Por linhas de timidez
Em volta da volta prometida.

Imortalizo o  encobrimento
Da dor embebida quando,
Lá do fundo, se escuta:
"Isto não é uma despedida."

08.11.2011

Inflamável

"inside view" | shoot me

Aconchego-me ao canto mais escuro
E banho os pés no calor da luz dourada.
Salivo segredos e murmuro silêncios, 
Escuto as saudades das palavras.

Espreito pelas ranhuras, 
Procuro-te do outro lado.
Entretanto, 
Vou guardando a chave
No meu coração atulhado.

Acompanho o escurecer das ideias
Ao ritmo dum relógio impaciente,
Até adormecer sobre as escritas
De tinta ardente.

07.11.2011


Sou Labirinto

Abraço o que sinto.
 Dou as mãos ao medo,
Mordo o lábio e 
Sigo o instinto.

Vem comigo.

Deixa-me oferecer-te 
Este orgão faminto.
Quero alimentar-te deste
Coração de sangue tinto. 

02.11.2011


Degraus

Quando o estranho indefinido te leva
A remexer geograficamente pelo desconhecido,
Procura o que te completa.

 Mas, se num degrau estagnaste,
Numa página que já viraste,
Para. Encontraste o teu poeta.  

01.11.2011

"coração nas mãos" | Ana Félix