[ShortStory]

--------------------------------------------------- PARTE 1 ---------------------------------------------------

"Amanhã morrerei, e hoje preciso de aliviar a alma." 
Edgar Allan Poe

    "Ela acordou, de cara voltada para as estrelas desenhadas no teto do quarto, esbatidas pela luz da manhã. Nela, um fio de suor entre os seios leitosos, as pernas envolvidas no cetim rosa e os braços atirados em preguiça.
    Sentou-se na borda da cama, de costas voltadas para o calor expirado pela janela entreaberta, e de frente para a porta branca do armário fechado. "Mais um dia", pensou.
    Levantou-se e despiu a t-shirt branca, larga e de opacidade nua que revelava os tons da sua pele. Tomou um duche, namorando a água morna da cabeça aos pés. Passou a mão no espelho embaciado, evitando qualquer contacto visual com o seu reflexo; pegou na toalha que comprou no seu aniversário e enrolou-se; enrolou também o longo cabelo dourado, despenteado e ensopado. Tentou secar-se, mas a toalha nova não lhe sugou toda a água do corpo, deixando-lhe a pele húmida e brilhante enquanto percorria os contrastes da casa.
    Já de roupa vestida e de estojo de maquilhagem na mão, cruzou-se com o espelho: no rosto, o creme, o eyeliner, o blush e o rímel mascaram as noites fechadas à sua volta, onde permanece acordada na escuridão até esta se ir embora. Penteou o cabelo na frente daquela estranha refletida, que a fitou o tempo todo: as expressões da pele frágil de pelo louro e os cachos pendentes de tons reluzentes, os maneirismos em cada gesto rotineiro. No final, "Mais um dia", convenceu-se, em pose artificial."
06 a 19.08.2013
--------------------------------------------------- PARTE 2 ---------------------------------------------------

"Ela sentia-se independente de si.
A pensar amargamente nisso, disse para consigo que se ia esquecer dele."
D. H. Lawrence

    "O relógio, o anel, um pfff de perfume, a carteira e um "Vamos" entre os lábios; desceu, apressadamente, os degraus tocando na madeira em bicos dos pés, entre o silêncio da madrugada e os murmúrios matinais.
    É já no carro, depois de sintonizar o rádio numa qualquer música embebida de sons de retratos de outros tempos, que lhe chegam imagens disparadas, separadas, carnais, irreais - até que param e regressa a claridade aos olhos e a consciência à alma: o sonho. Um daqueles que nos confundem nos primeiros segundos aquando despertos. O coração cai-lhe aos pés e contrai-se ao recordar a cidade de sempre e as pessoas de outrora, em vidas ajustadas pelo amadurecimento no tempo, reunidas em estórias noturnas, compridas, profundas, estruturadas e sentidas. O negro das sombras dissolvidas nos tons de sépia desfalecidos pelas ruas de pedras cinza caídas em muralhas perdidas na húmida neblina; os chãos nús de terra batida e musgo que ornamenta os limites dos edifícios de tijolo vermelho. Lá, ela encontra-o sempre: volta e meia cruzam-se no dia a dia rotineiro dum mundo criado na essência do inconsciente, talvez pela presença do ausente, que nada mais se trata do que duma lenta degustação de dor negligenciada no abstrato do mundo real - lugar mentiroso, também.
    Quando a curiosidade acalmou, conduziu pelas avenidas divididas por prédios altos, que assombra os caminhantes nas pedras das calçadas; dançou o carro pelos outros, entre os sons dos motores ferventes, dos insultos entrecortados por buzinas sôfregas, dos pensamentos gritantes, distantes. Distância... por mais distante que ele esteja, nunca estará suficientemente distanciado dela.
    Marcou o ponto no edifício onde trabalha, subiu no elevador e nele reencontrou-se com o espelho: evitando o olhar direto, alinhou os fios de cabelo sobre os olhos, corrigiu o eyeliner derretido, a saia colorida foi esticada e assente e pintou os lábios esponjosos, vultuosos num discreto rosa claro.
    Pela hora do almoço já divagava pelas prosas, de sorriso adormecido na hipocrisia e de cabelos soltos do rabo de cavalo.

    Batiam os raios de sol na tela do computador e espalhava-se o laranja pelos labirintos de alcatrão quente, que ela olhava sem olhar, do andar onde estava sentada. No espelho do carro, refletiam na pele cansada os últimos raios do dia, que pintavam as janelas ao longo do caminho tardio de volta a casa; de volta ao vazio, ao escuro do silêncio, onde lhe esperava o nada.
    No percurso, um arrepio que lhe grita da fervura do coração, soluça até à mente e forma letras que lhe sussurram "liga-lhe"."
06 a 30.08.2013
--------------------------------------------------- PARTE 3 ---------------------------------------------------

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."
Álvaro de Campos

   ""E por que não?", perguntou-se a ela própria, ainda no balanço do carro pela estrada. Procurou-se no espelho retrovisor, mas não se quis ver. Pensou em ligar a alguém, procurar uma voz amiga; tinha uma vontade ofegante de partilhar esta ideia suicida de se reaproximar, mas esse alguém ou está ali ou acolá, de mal com o presente ou até desapegado do corpo. Ninguém.

    Chegada a casa, foi tirando os sapatos vermelhos envernizados de salto agulha pelo corredor fora até à sala, atirou com a mala pesada para o cadeirão e o seu corpo contra o sofá. Olhou em volta. Levantou-se e começou a marchar pelas divisões da casa, de telemóvel na mão direita com o número dele no ecrã e o polegar no botão 'ligar'. Não conseguiu.     
    Escreveu, então, uma mensagem, carregando nas teclas trémula pela euforia da saudade que a consumia:  'mensagem enviada'. O tempo passou e o telefone permanecia inanimado, em cima da pequena mesa de cerejeira da sala de estar. Passaram meses pelos minutos de espera, até que o tão venerado objeto do momento apita: é ele. É ele e as suas palavras vagas, que a escravizam como um encantamento: "A que horas?", "Agora.".

    Na escuridão, sob um solitário lampião, eis que ela o vê.    
    Estacionou sob as pesadas chicotadas da chuva e ele entrou. Ela mirava o vazio da noite, de palmas transpiradas, lábios mordiscados e de peito acelerado, enquanto ele colocava a mão na sua coxa mármorea e a apertava num pavor inquieto, como se expelindo algo do seu âmago. Ela deixou-se acariciar, silenciosa.    
    A mão subiu pela pele de loiros pelos, empurrando as cores da saia de tamanho médio. Ela agarrou-o pelo pescoço, puxando-o para si os saudosos lábios dele. No ar, flutuavam as memórias no vazio da mudez das palavras e apalpavam-se os suspiros viscerais. Batiam os segundos no relógio já tirado e atirado para o chão do carro e batiam também os corações presos nos corpos quentes, esfregados um no outro. Nada havia a dizer; as bocas apenas percorriam a saudade dum tempo sem tempo que os unia escrupulosamente nos momentos em que se deixavam desejar. Nada é dito. O único som é o dos poros sufocados de prazer, esmorecidos pela pele dos corpos banhados por suores de cheiros doces na desordem dos sentidos. E, nesse instante de trégua, mergulharam nas íntimas vontades do outro, confusos em ecos repetidos e ampliados pela altitude da noite.     
    Ali, de peles distendidas, cansadas e arrepiadas pelo suor frio que escorre ao ponto final da noite, a respiração que abranda depois de abafada por densos silêncios. Sem se olharem, não desviavam a atenção dos odores quase esquecidos pela distância no tempo e que agora pendiam no ar fechado do carro parado.     
    Pelas veias corria, efervescente, o sangue repetidamente exposto, coagulado, reanimado e morto.
   Vestiram-se com calma, no meio da atrapalhação que os rodeava. Ambos de dor surda na alma, na demora do despertar para a aceleração das suas vidas. Ela virada para ele, de coração moído nas mãos ensanguentadas; ele com alucinações que lhe chegavam aos lábios num murmúrio: "Amo-te."." 
06.08 a 24.09.2013
------------------------------------------------ PARTE FINAL ------------------------------------------------

"Algumas pessoas nunca enlouquecem.
Que vidas verdadeiramente horríveis devem elas liderar."
Charles Bukowski

    "Subiu por ele de dentro para fora, numa vaga pavorosa, uma sensação de alívio como ele já não sentira há algum tempo. Em suspiros, o alvoroço vindo das sombras ocultas da memória; recordações que haviam sido encobertas pelas entranhas do seu ser. 
  Acomodou a alma atormentada no corpo quieto, decrepitada pela neblina do incerto. Ouviu crescer o silêncio no seu interior, enquanto espreitava pela janela de madeira húmida as luzes mergulhadas na  profundeza da noite e sentiu-se distanciado daquele lugar, empurrado pela tristeza do momento, intimidado por aquela súbita, absurda solidão. 
"Aperta o peito, rompendo o orgão
 e disparam os pregos que o unem
ao corpo em decomposição."

    Abre-se um baço olho azul com as pontas dos dedos, "sem reação" - ouve-se, em tom asfixiado pelos quilómetros entre eles. Ali estava ela, de alma acordada num corpo esmagado pela carcaça do carro, que bateu, capotou e rolou estrada fora. 
    Ela, de telemóvel na mão pronto para lhe ligar.."

06.09 a 03.11.2013

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